A Fadiga do Ativismo Cultural: o mercado, as urnas e a reconfiguração política de 2026

Entre o recuo de políticas identitárias nas grandes corporações e o avanço da direita no Congresso brasileiro, uma questão ganha força: o discurso ideológico perdeu espaço para as preocupações econômicas e cotidianas da sociedade?
Por Cleber de Moraes | Verde Louro
11 de outubro de 2026 | Política, Cultura e Sociedade

Quando o ativismo encontra os limites do mercado
Durante a última década, grandes corporações passaram a incorporar questões de identidade, diversidade e representação às suas políticas internas, campanhas publicitárias e estratégias de posicionamento institucional.
O movimento, frequentemente associado à expressão woke, surgiu de debates legítimos sobre discriminação e desigualdade. Entretanto, sua transformação em linguagem corporativa também produziu controvérsias: até que ponto uma empresa deve assumir posicionamentos ideológicos que não representam necessariamente a totalidade de seus consumidores?
A resposta do mercado tem sido heterogênea. Enquanto algumas organizações mantiveram compromissos públicos com políticas de diversidade, outras reduziram programas, revisaram metas ou abandonaram iniciativas diante de pressões políticas, jurídicas e comerciais.
Em janeiro de 2025, a Reuters documentou mudanças nas políticas de diversidade de empresas como Meta, Amazon, Walmart e Ford. O recuo ocorreu em um ambiente de crescente contestação conservadora e de questionamentos legais nos Estados Unidos.
Esses movimentos revelam uma transformação no relacionamento entre marcas e sociedade. Entretanto, não demonstram, isoladamente, que iniciativas de diversidade sejam responsáveis por perdas financeiras generalizadas.
O desafio das empresas parece estar menos na existência de valores institucionais e mais na capacidade de comunicá-los sem transformar o consumidor em adversário de uma disputa cultural.
Hollywood: entre a liberdade criativa e a rejeição do público
Hollywood tornou-se um dos principais campos de batalha simbólicos dessa discussão.
Produções da Disney, Marvel, Pixar e Star Wars passaram a ser frequentemente analisadas não apenas por sua qualidade artística, mas também pelas mensagens sociais e políticas percebidas em seus roteiros.
Críticos argumentam que determinadas obras passaram a priorizar representatividade e posicionamento cultural em detrimento do desenvolvimento narrativo. Defensores dessas mudanças respondem que a diversidade de personagens e perspectivas amplia as possibilidades criativas e não determina, por si só, a qualidade de uma produção.
A análise financeira exige cuidado.
Apesar das controvérsias envolvendo algumas produções, o segmento de entretenimento da Disney registrou lucro operacional de aproximadamente US$ 4,7 bilhões no exercício fiscal de 2025, crescimento de 19% em relação ao ano anterior.
Esse resultado não elimina fracassos comerciais individuais, mas impede a conclusão de que a companhia sofreu um colapso financeiro generalizado em decorrência de suas escolhas culturais.
O que permanece como questão legítima é a possível distância entre as expectativas de determinados públicos e a direção criativa adotada por grandes estúdios.
Afinal, uma obra audiovisual precisa convencer pelo enredo, pelos personagens e pela experiência oferecida. Nenhuma mensagem política substitui automaticamente uma boa história.
A economia real e o desgaste das narrativas políticas
Fora das telas, a disputa cultural encontra uma realidade mais concreta: inflação, renda, emprego, impostos, segurança e perspectivas de ascensão social.
Pesquisas acadêmicas mostram que a insegurança econômica pode influenciar preferências políticas, inclusive aumentando o apoio a partidos conservadores em determinados contextos.
Um estudo publicado no Oxford Economic Papers, com dados dos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, identificou associação entre insegurança econômica e maior apoio a forças políticas de direita.
Entretanto, a literatura não apresenta uma explicação única. Pesquisas sobre a eleição americana de 2016 também identificaram o papel das percepções de ameaça ao status social e cultural, enquanto outros estudos apontaram que a insegurança econômica pode favorecer movimentos populistas de diferentes orientações.
Essas conclusões sugerem que o comportamento eleitoral resulta da combinação de fatores materiais, culturais, institucionais e históricos.
No cotidiano, o eleitor não vive apenas de debates abstratos.
O pequeno empresário precisa pagar seus impostos. O trabalhador acompanha o preço dos alimentos. A família avalia a segurança de seu bairro. O jovem procura emprego, moradia e oportunidades.
Quando o discurso político parece distante dessas experiências, abre-se espaço para adversários que consigam apresentar respostas mais próximas das preocupações populares.
Isso não significa que questões de direitos e representação deixem de ter importância. Significa que sua presença no debate público não elimina a necessidade de respostas convincentes para os problemas econômicos e sociais.
Brasil, outubro de 2026: uma nova composição política
As eleições gerais brasileiras de 4 de outubro produziram uma mudança expressiva na composição do Congresso Nacional.
O Partido Liberal (PL) conquistou 121 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, tornando-se a maior bancada individual. O Partido dos Trabalhadores (PT) elegeu 70 deputados, enquanto outras legendas de centro e direita mantiveram presença relevante.
No Senado, o PL conquistou 19 das 54 vagas em disputa, ampliando sua representação projetada para 28 dos 81 assentos a partir de 2027.
Os números demonstram um fortalecimento importante do campo conservador, mas não significam que uma única legenda tenha conquistado o controle absoluto do Legislativo.
A formação de maiorias continuará dependendo de alianças, negociações e posicionamentos de diferentes partidos.
Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva. A decisão final está prevista para 25 de outubro.
Portanto, em 11 de outubro, o resultado presidencial permanece em aberto.
O diagnóstico da The Economist
Em editorial publicado em 6 de outubro de 2026, a revista britânica The Economist apresentou uma interpretação contundente do primeiro turno brasileiro, sob o título “Brazil is a right-wing country now” — “O Brasil é um país de direita agora”.
A publicação interpretou o crescimento da direita como sinal de desgaste do longo ciclo de influência política do PT.
Contudo, seu diagnóstico não se limitou a celebrar a mudança. O editorial também apontou preocupações com a condução política do bolsonarismo, o compromisso fiscal de suas lideranças e os possíveis efeitos sobre as instituições democráticas.
Esse contraponto é importante.
A expansão eleitoral de um campo político não significa automaticamente que suas propostas econômicas produzirão resultados superiores. A capacidade de governar depende de escolhas concretas, responsabilidade fiscal, estabilidade institucional e execução administrativa.
O resultado das urnas revela uma redistribuição de poder. O significado duradouro dessa mudança ainda será definido pelos acontecimentos posteriores.
O esgotamento de uma linguagem ou de um projeto político?
A expressão fadiga woke pode descrever o cansaço de parte da sociedade diante da presença constante de disputas identitárias na publicidade, no entretenimento e na comunicação política.
Mas é necessário distinguir três fenômenos.
O primeiro é a resistência de consumidores a determinadas mensagens corporativas.
O segundo é a revisão de políticas de diversidade por empresas submetidas a pressões políticas, jurídicas e comerciais.
O terceiro é a mudança de preferência dos eleitores, influenciada por economia, segurança, valores culturais e avaliação dos governos.
Esses fenômenos podem se relacionar, mas não são equivalentes.
Não seria cientificamente correto atribuir o avanço conservador de 2026 exclusivamente à rejeição do ativismo cultural, assim como não seria adequado ignorar que os conflitos de valores se tornaram parte relevante da disputa política contemporânea.
A questão mais profunda talvez seja outra: quando a identidade política passa a ocupar o centro de toda discussão pública, o espaço para soluções práticas pode diminuir.
Esse risco não pertence exclusivamente à esquerda. Movimentos conservadores também podem transformar questões culturais em disputas permanentes e deixar em segundo plano compromissos econômicos e administrativos.
Conclusão: a sociedade exige mais do que posicionamentos
O avanço da direita no Brasil, a revisão de políticas corporativas nos Estados Unidos e as controvérsias culturais em Hollywood representam processos distintos, mas revelam uma característica comum do nosso tempo: a crescente disputa pela confiança do público.
Empresas precisam entregar produtos e serviços que atendam às expectativas de seus consumidores.
Governos precisam demonstrar capacidade de enfrentar problemas concretos.
Movimentos culturais precisam encontrar formas de dialogar com sociedades plurais, nas quais nem todos compartilham as mesmas convicções.
O primeiro turno brasileiro de 2026 indica uma reorganização importante do poder político, mas ainda não encerra a disputa sobre os rumos do país.
A verdadeira mudança não será medida apenas pelo número de cadeiras conquistadas no Congresso ou pelo resultado de uma eleição presidencial.
Será medida pela capacidade das novas maiorias de transformar suas promessas em resultados verificáveis.
Quando a ideologia deixa de ouvir a realidade, a sociedade procura outras vozes. Mas nenhuma dessas vozes está dispensada de apresentar resultados.
Fontes e referências
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Resultados do primeiro turno das Eleições 2026, divulgados em 5 de outubro.https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/resultados-do-1o-turno-das-eleicoes-2026-estao-disponiveis-em-pagina-do-tse
The Economist — Brazil is a right-wing country now, editorial de 6 de outubro de 2026.https://www.economist.com/leaders/2026/10/06/brazil-is-a-right-wing-country-now
Reuters — Brazil ex-President Bolsonaro wins big without his name on the ballot, 6 de outubro de 2026.https://www.reuters.com/world/americas/brazil-ex-president-bolsonaro-wins-big-without-his-name-ballot-2026-10-06/
The Walt Disney Company — Fiscal Year 2025 Annual Financial Report.https://investors.thewaltdisneycompany.com/files/doc_financials/2025/ar/2025-Annual-Report.pdf
Reuters — U.S. Companies Cut Diversity Efforts as Challenges Mount, janeiro de 2025.https://www.inc.com/reuters/u-s-companies-cut-diversity-efforts-as-challenges-mount/91106160
Oxford Economic Papers — Economic insecurity and political preferences, volume 75, edição 3, 2023.https://academic.oup.com/oep/article/75/3/802/6693580
PNAS — Diana C. Mutz, Status threat, not economic hardship, explains the 2016 presidential vote, 2018.https://doi.org/10.1073/pnas.1718155115
Economica — Guiso e colaboradores, Economic insecurity and the demand for populism in Europe, 2024.https://doi.org/10.1111/ecca.12513
Artigo de análise e opinião. As interpretações editoriais são de responsabilidade do autor e estão distinguidas dos dados documentados nas fontes.

Comentários